• Larissa Ferreira

Os desafios na reabilitação dentária em idosos e a utilização das próteses




Eu não sei a idade de quem está lendo esse texto, mas acredito que você, provavelmente, já passou por alguma experiência de aprendizagem. A partir do momento em que nascemos, a nossa primeira respiração fora do útero precisa ser aprendida! Ao longo da vida, os desafios continuam nos exigindo cada vez mais força de vontade para aprender.


No nosso trabalho com a Odontologia Domiciliar, estamos constantemente aprendendo. Como profissional de saúde, não teve um dia sequer que eu não tenha sido obrigada a aprender algo novo, seja no manejo dos problemas bucais ou no trato com outro ser humano.


As próteses dentárias: benefícios, riscos e desafios


Os meus primeiros trabalhos de prótese foram extremamente desafiadores, porque os pacientes não tinham um bom suporte de osso para acomodá-las, o que dificultava muito o sucesso da reabilitação.


Há casos em que as condições são mais favoráveis, como quando temos bastante quantidade de osso e um perfil de gengiva mais “grossinho”. Em outros casos, principalmente quando a perda dos dentes data de bastante tempo atrás, não temos osso em quantidade disponível, ou podemos ter um osso tão pontudo que o uso da prótese pode ser bastante incômodo.


A maioria dos nossos pacientes está em uma idade avançada e perderam alguns dentes há bastante tempo. A nossa mordida, que é chamada de oclusão, tem um jeito bem específico de encaixar e a menor perda dentária pode acarretar vários problemas. Quando o paciente perde esses dentes, o corpo aprende uma nova maneira de encaixar a mordida, tentando equilibrar essa perda de uma forma funcional, podendo ocorrer inclinações dentárias ou mudanças na posição da articulação e do osso.


Quando planejamos uma reabilitação com próteses, temos o objetivo de levar a mordida de novo para a posição que ela deve ficar! Movimentando com o osso, a articulação e encaixando novamente os dentes para tirar o paciente daquela mordida aprendida. E aí que começam os desafios, pois vamos ter que ensinar para o corpo onde é que tem que morder.

É claro que não é fácil se adaptar com uma coisa nova na nossa boca, que possui tecidos tão sensíveis e cheios de neurônios terminais que percebem a menor das mudanças. Mas, com paciência, força de vontade e ajuda profissional, o desejo de ter os dentes de volta pode ser plenamente atendido!


É importante analisar o contexto antes de instalar próteses dentárias em pacientes idosos!


Já atendi pacientes que tinham todas as condições favoráveis para a adaptação da prótese, mas eles não queriam usar e simplesmente não usaram (tem até o famoso caso do idoso que jogou a prótese pela janela no dia que ela foi entregue, mas isso contamos depois).

Em todo caso, é necessário saber se o paciente tem o desejo de colocar prótese e se o seu uso vai gerar algum benefício funcional, como fazer o idoso comer melhor. Há casos em que a família deseja que o paciente use a prótese apenas por uma questão estética, para ter os dentes na boca, mesmo que o paciente não queira isso, e nesse caso é bem provável que quem vá usar a prótese seja a gaveta. O manejo da expectativa da família é importante e, como família, é sempre necessário entender os limites do idoso, que vai ter uma curva de aprendizado gradual e que pode não estar disposto a passar pelo processo.


Também houve casos em que os pacientes queriam muito usar uma prótese, tinham o desejo de comer uma comida mais consistente e a falta de dentes prejudicava muito a dieta. Entretanto, esses pacientes não tinham uma boa anatomia para garantir uma boa reabilitação. No caso de haver uma boa indicação e vontade por parte do paciente, quase sempre optamos por tentar, sempre orientando que o processo não será fácil e que o tratamento pode ser infrutífero.


Há poucos meses terminamos a reabilitação de um paciente com todas as condições desfavoráveis, um candidato à prótese de gaveta. Imagine a minha surpresa ao chegar no espaço, um mês depois, e ver o paciente comendo rosquinha Mabel sem estar molhada no café! O que realmente fez a diferença nesse caso foi a vontade do paciente de aprender a usar a prótese. No dia da instalação da, eu ensinei como as peças deveriam encaixar e ele me contou que passou uma semana mordendo nesse lugar só para aprender, e ainda que foi mais difícil que aprender a dirigir.


Qualquer tratamento com próteses dentárias será desafiador!


O que podemos prever no tratamento com próteses? Que não será um processo fácil e que dependerá da iniciativa do paciente e vontade de aprender a usá-la. Quando bem indicada, os benefícios superam as dificuldades e conseguimos ajudar no bem-estar e na autoestima dos pacientes e também no processo de fonoterapia, com a melhora da alimentação e da fala.


O que eu sempre ensino para os pacientes é que assim como aprendemos a falar, andar, ler e dirigir, teremos que reaprender a mastigar, conversar e a

ter aqueles dentes de volta na boca. O que sempre fica claro, por conta da relação que construímos com os pacientes, é que eles terão com quem contar nesse processo. Que nós, dentistas, ensinaremos o passo a passo da acomodação e que, quando houver algum incômodo, dor ou feridas, ajustaremos as próteses para que fiquem confortáveis e facilite esse processo de adaptação.




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