• Raíssa Rodrigues

Meu Pai, filme de Anthony Hopkins, propõe reflexões importantes sobre doenças demenciais!




“Eu me sinto como se estivesse perdendo todas as minhas folhas. Os galhos, o vento e a chuva… não sei mais o que está acontecendo.”


Nunca fui a pessoa mais antenada ao Oscar. Não acompanho a premiação, tampouco fico ávida por assistir a todos os filmes que estão cotados a levar a estatueta dourada. Porém, este ano um filme me deixou bastante curiosa: tanto pelo ator que atuou como personagem principal como pelo tema. Estar, neste momento profissional, mais próxima do público da terceira idade abriu meus olhos para outros horizontes e fui fisgada pelo filme Meu Pai (abril/2021) protagonizado por Anthony Hopkins.


O filme é uma adaptação de uma peça de teatro homônima e traz a realidade da demência sob a ótica da pessoa afetada por esta doença. O enredo exibido pelo filme é devastador e poético.


Um enredo que nos traz reflexões essenciais!


Em Meu Pai, Anthony (Anthony Hopkins) é um senhor de mais de 80 anos que mora em Londres e se recusa a ter uma cuidadora deixando sua filha, Anne (Olivia Colman), em um impasse: como ir morar em Paris e deixar o pai em condições tão delicadas morando só?


A história se passa dentro de um apartamento que por vezes é o de Anthony e em outras é o de Anne. Os móveis e adornos mudam acompanhando as confusões mentais de Anthony. As cenas e falas se repetem fazendo uma aproximação com o fluxo de ideias também confuso do personagem principal. Tudo isso prende o telespectador que se questiona a todo momento sobre o que é ou não real. Ficamos na dúvida quanto à veracidade dos fatos e da presença de outros personagens e objetos.


A grande maioria dos filmes que trazem a temática de doenças neurodegenerativas é apresentado por um narrador observador, que retrata o que acontece sob um olhar externo. Meu Pai se difere bastante neste aspecto, pois somos levados a vivenciar a mente de um idoso com demência e a atuação de Anthony Hopkins é irretocável. A trama nos envolve, ficamos atentos a qualquer mudança no cenário, roupa dos personagens e outros detalhes.


O retrato apontado no filme é muito semelhante à realidade que encontramos no nosso dia-a-dia como profissionais de saúde!


A abordagem tão bem interpretada deste momento da vida em que há uma inversão dos papéis e responsabilidade de pai e filha retrata muito bem a realidade de muitas famílias que têm seus idosos queridos acometidos por doenças demenciais. Este retrato da realidade é bastante comovente. Atuando como profissional de saúde junto a pacientes demenciados e suas famílias, me deparo com realidades muito semelhantes à apontada no filme.


As imagens se dividem em momentos de certa tensão, de risos permeados com choros e algumas surpresas. Cenas poderosas que tratam sobre amor, reconhecimento e sobre empatia trazem para o filme uma grande sensibilidade em meio a tantas incertezas e dificuldades da Demência.


As cenas finais são bastante impactantes e trazem duras reflexões sobre os medos e os reflexos psicológicos que a pessoa idosa pode sentir ao estar doente e se sentir abandonado, perdido em meio às dúvidas que a cercam. Estas últimas cenas arrematam o filme de forma brilhante e traz consigo uma frase que representa bem a experiência de quem tem demência: “Eu me sinto como se estivesse perdendo todas as minha folhas. Os galhos, o vento e a chuva… não sei mais o que está acontecendo.”


Meu Pai: um filme feito para pensar e se emocionar!


E não é isso que a Demência faz? Assemelha-se a um arrancar das páginas da vida e o livro fica incompleto e confuso, tanto para quem tem a doença quanto para quem a acompanha.


Vale a pena assistir ao filme com olhar curioso e reflexivo. Com certeza você irá se encantar com a atuação de Anthony Hopkins e de Olivia Colman e se emocionar bastante.


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